Posts in Category: Felipe Costa

Jiu Jitsu é um idioma 

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Em 2003, depois de me tornar

Campeão Mundial na faixa preta, fui convidado a passar 3 meses nos EUA dando aula. Fui pela experiência, pela viagem e para reciclar meu inglês. Não tinha pretensões profissionais.  

 

Voltei da viagem com sonho de viver do JiuJitsu, mas sempre procurei ter uma visão realista das coisas e, pesando os prós e contras, estimei que conseguiria viver ensinando pelo mundo por cerca de 10 anos ( tempo médio para se tornar um faixa preta), depois disso teria que dar outro rumo a minha vida. 

 

Me dei conta esses dias que falhei na minha previsão, já se passaram bem mais que uma década (gulp - eu engolindo seco rs).

 

Por que um país que ajudei a formar vários graduados, que hoje tem suas próprias academias e inclusive me ensinam aos montes quando visito, continuaria me convidando se não apenas pela amizade formada?

 

Suponho, sem maiores pretensões, que continuo sendo convidado para seminários não para ensinar técnicas de JiuJitsu, essas já não são segredos como outrora, mas sim pelo interesse na minha forma de entender e aplicar as técnicas. São as combinações e a forma como consigo fracionar as sequências que geram o interesse. 

 

Se as técnicas da luta corpo a corpo fossem letras, cada letra representando um movimento ou controle e isso fosse o que eu ensinasse, depois de ensinado o alfabeto, meu estoque acabaria. 

Mas ensino um idioma, ensino o JJ Brasileiro. 

Eu não ensino letras. Ensino como as combino em minha mente para então formar palavras e consigo soletrar cada letra delas, de maneira simples, onde todos possam entender.

Por isso entendo que o professor não pode perder a motivação de treinar, o treino é o bate papo, onde novas frases se formarão de acordo com as circunstâncias, sejam elas limitações físicas ( contusões, idade, etc), estilos de luta dos "oponentes", regras (sem tempo, com pontos, até finalizar etc) e outros. 

 

felipe costa

Depois de 5 meses recuperando de uma cirurgia, voltei a treinar com muitas limitações, tanto da lesão como na questão de resistência física, sem entrar no detalhe de desânimo que isso gera e até mesmo no exercício de controlar o ego. Essas limitações me forçaram a combinar algumas técnicas que me possibilitassem a ter algum êxito durante meus treinos. 

A combinação não saiu de imediato, mas com ajustes foi melhorando. 

Hoje ainda não estando 100%, mas já melhor da lesão, consigo fazer essa combinação de maneira mais eficiente, pois não há o fator "dor" que é muito limitante. 

 

Meu último seminário foi inteiro baseado nessas "frases" que formei para driblar minha limitação. 

Posso dizer que inventei algo? Não sei, acho que não. Meu mérito talvez seja a criatividade e visão de perceber essas combinações. Combinações essas que pode ter ou ser percebidas por outras pessoas do outro lado do mundo e podem formar até outro idioma, que  não o JJ Brasileiro, mas outra "luta agarrada". 

 

Ao fim do meu seminário, um aluno veio comentar que não sabia que eu tinha aquele conhecimento de Wrestling. Eu ri sem entender e disse que o meu conhecimento nessa área era limitado, ele ficou surpreso e disse que as técnicas que eu havia mostrado tinha muitos detalhes da luta e me mostrou formas de derrubar o adversário usando os mesmos controles. Fiquei maravilhado!

Idiomas diferentes ( modalidades) formados pelas mesmas letras  (técnicas), tendo suas combinações ou criações feitas de acordo com suas necessidades, influências culturais e regras. 

 

Procure aprender as palavras, as frases, os idiomas e não apenas as letras. Se cerque de pessoas com vocabulário vasto, entenda a combinação e certamente sua evolução será grande.

 

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Posted by Felipe Costa Jul 03, 2017 Categories: BJJ Felipe Costa Jiu Jitsu Motivational

O desejo não morre - Jiu Jitsu 

O desejo não morre. 

- Ja parou para pensar que o desejo, mesmo com a idade , não acaba?

- Não?

- Claro que não! O corpo envelhece , as reações mudam, aceitamos ou nos acostumamos com as impossibilidades, mas o desejo continua, às vezes reprimido, mas está ali vivo, tão vivo quanto na juventude. 

- Assustador. 

 

Faz sentido e é até óbvio , mas nunca havia parado para pensar naquilo antes de escutar da boca daquele senhor. Um senhor distinto, nos seus setenta e poucos anos (ou seria mais?). Na verdade talvez menos. É tão difícil ser preciso ao supor a idade de alguém de uma geração diferente. 

Ele não parecia ser daqueles velhos "babões ", mas estava se referindo a desejo sexual e com sua afirmação faria meninas franzirem a testa já o julgando como tarado. 

 

Aquela informação boba, dita num papo furado voltou a minha mente tempos depois, sem uma razão específica de ser, mas ficou ali ecoando "o desejo não envelhece". 

 

É muito difícil explicar como o Jiu-Jitsu vira parte do dia a dia para alguém que não treinou por ao menos um tempo. Para tudo que faço e penso na minha vida, os princípios do jiu-Jitsu estão presentes, seja pensando na maneira mais eficiente de pegar meu filho no colo gastando menos energia, escolhendo um caminho mais curto para determinado lugar, organizando tarefas ou escolhendo a melhor maneira de ficar em pé e segurar no pegador de um ônibus em movimento. Não sei o quão difícil é fazer quem lê entender isso, mas os princípios dessa arte marcial se entranham nos nossos movimentos, no nosso pensamento, na alma e não tem mais volta, entra e fica. 

 

Além de todos esses fatores, brevemente descritos em um parágrafo pequeno demais para dar ideia do que se trata, em algumas pessoas vem com o conhecimento do Jiu-Jitsu um bônus que é o desejo de se desafiar. 

 

Estou chegando a conclusão que esse desejo não morre e essa ideia é assustadora. Como aceitar que, assim como na sexualidade, o corpo em algum momento não vai responder da mesma forma que na juventude. Como tirar da cabeça aquele desejo de um último grande desafio? Aquele sonho que toda experiência pode, de algum modo, compensar o tempo e as contusões e se impor ao vigor físico de adversários que estão chegando?

 

Fica a reflexão e talvez estar consciente desse fato, possa ajudar a aceitar a já batida máxima de que "se não tem solução, solucionado está. "

Felipe Costa Campeao Mundial

*Escrito por Felipe Costa, Campeao Mundial na faixa preta, que também conquistou ouro em TODOS principais campeonatos da IBJJF. 

Felipe lidera a academia Brazilian Black Belt em Ipanema - Rio de Janeiro, onde é responsável pelas aulas de Jiu-jitsu.

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Posted by Felipe Costa Feb 03, 2017 Categories: BJJ Felipe Costa Jiu Jitsu